A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar o primeiro medicamento não hormonal direcionado especificamente para o tratamento dos sintomas vasomotores moderados a intensos associados à menopausa, os conhecidos como “fogachos”. O fármaco, cujo princípio ativo é o fezolinetanto, representa um marco histórico na saúde da mulher. Até o momento, a Terapia de Reposição Hormonal (TRH) figurava como o tratamento principal, porém, limitante para mulheres com contraindicações, como histórico de câncer de mama, risco cardiovascular elevado ou, para aquelas mulheres que optam por não usar hormônios.
Como este medicamento funciona?
Diferente das terapias clássicas que repõem o estrogênio, o fezolinetanto atua diretamente no sistema nervoso central, mais especificamente no hipotálamo, região do cérebro responsável pela termorregulação do nosso corpo. Durante o período reprodutivo, existe um equilíbrio entre os níveis de estrogênio e uma substância química cerebral chamada neurocinina B. Com o declínio acelerado do estrogênio na transição menopausal, esse equilíbrio se rompe. A neurocinina B passa a atuar de forma hiperativa sobre um grupo específico de neurônios no hipotálamo, conhecidos como neurônios KNDy (abreviação para kisspeptina, neurocinina B e dinorfina).
Essa hiperatividade engana o termostato do cérebro, enviando “falsos alarmes” de aquecimento para o corpo. É isso que desencadeia as famosas ondas de calor (fogachos), o rubor e a sudorese noturna intensa. O fezolinetanto é um antagonista seletivo que atua como um “bloqueador”. Ele impede que a neurocinina B se conecte aos seus receptores nesses neurônios, restaurando o equilíbrio térmico e reduzindo drasticamente os sintomas direto na fonte, sem envolver o estrogênio.
Nossa pesquisa e a inovação medicamentosa:
Os sintomas vasomotores, especialmente os suores noturnos, são os grandes responsáveis pela fragmentação e privação do sono na menopausa. Sabemos que o sono de má qualidade e o estresse crônico resultante são gatilhos bem documentados para a exacerbação da asma, aumentando a inflamação sistêmica e prejudicando a função pulmonar. Ao tratar os fogachos de forma não hormonal, uma pergunta surge para nós pesquisadores: a melhora na qualidade do sono proporcionada pelo fezolinetanto seria capaz de reduzir os marcadores inflamatórios e melhorar indiretamente o controle da asma nessas pacientes?
Referências:
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/anvisa-autoriza-medicamento-nao-hormonal-que-trata-sintomas-da-menopausa.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37388717/.
Autora: Juliana Carvalho (Bolsista de Iniciação Científica FAPESP: 2025/21036-0)